sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

ALUCINAÇÃO



Mesmo que não esteja a dormir, posso estar a alucinar. Alguém pode ter deitado uma droga no meu café que provoque alterações mentais de forma que me pareça ver coisas que na verdade não existem. Talvez não tenha realmente uma caneta na mão; talvez não esteja de facto sentado frente a uma janela num dia soalheiro. Se ninguém deitou LSD no meu café, talvez aconteça apenas que atingi um tal estado de alcoolismo que comecei a alucinar. Contudo, apesar de esta ser uma possibilidade, é altamente improvável que possa prosseguir tão facilmente a minha vida. Se a cadeira onde estou sentado é apenas imaginária, como pode ela sustentar o meu peso? Uma resposta a isto é que eu posso desde logo estar a alucinar que estou sentado: posso pensar que me vou sentar numa confortável poltrona quando de facto estou deitado num chão de pedra e tomei um alucinogénio, ou bebi uma garrafa inteira de Pernod.

Cérebro numa cuba?
A versão mais extrema deste cepticismo acerca do mundo exterior e da minha relação com ele é imaginar que não tenho corpo. Tudo o que sou é um cérebro a flutuar numa cuba de produtos químicos. Um cientista perverso ligou de tal forma fios ao meu cérebro que tenho a ilusão da experiência sensorial. O cientista criou uma espécie de máquina de experiências. Do meu ponto de vista, posso levantar-me e dirigir-me à loja para comprar um jornal. Contudo, quando faço isto, o que está realmente a acontecer é que o cientista está a estimular certos nervos do meu cérebro de maneira a que eu tenha a ilusão de fazer isto. Toda a experiência que penso provir dos meus cinco sentidos é na verdade o resultado de este cientista perverso estar a estimular o meu cérebro desencarnado. Com esta máquina de experiências, o cientista pode fazer que eu tenha qualquer experiência sensorial que poderia ter na vida real. Através de um estímulo complexo dos nervos do meu cérebro, o cientista pode dar-me a ilusão de estar a ver televisão, a correr uma maratona, a escrever um livro, a comer massa ou qualquer outra coisa que eu poderia fazer. A situação não é tão rebuscada como pode parecer; os cientistas estão lá a fazer experiências com simulações feitas em computador conhecidas como máquina de “realidade virtual”.
A história do cientista perverso é um exemplo do que os filósofos chamam uma experiência mental. Trata-se de uma situação imaginária descrita de forma a esclarecer certas características dos nossos conceitos e pressupostos diários. Numa experiência mental, tal como numa experiência científica, através da eliminação de detalhe que complicam as coisas e através do controlo do que acontece, o filósofo pode fazer descobertas acerca dos conceitos sob investigação. Nesse curso a experiência mental é concebida para mostrar alguns dos pressupostos que costumamos ter acerca das causas da nossa experiência. Haverá alguma coisa acerca da minha experiência que possa mostrar que esta experiência mental não dá uma boa imagem da realidade, que eu não sou apenas um cérebro numa cuba a um canto do laboratório do cientista perverso?
Memória e lógica
Apesar da ideia de que posso ser apenas um cérebro numa cuba parecer constituir uma forma extrema de cepticismo, há ainda, de facto, outros pressupostos de que podemos duvidar. Todos os argumentos que discutimos até hoje pressupõem que a memória é mais ou menos digna de confiança. Quando dizemos que nos recordamos de ocasiões passadas em que os nossos sentidos não foram dignos de confiança, pressupomos que estas recordações são realmente recordações e que não são apenas produtos da nossa imaginação ou de raciocínios caprichosos. E todos os argumentos que usam palavras pressupõem que nos lembremos correctamente do significado das palavras usadas. No entanto, a memória, tal como os dados dos nossos sentidos, não é digna de confiança. A minha experiência é não só compatível com a perspectiva de que poderia ser um cérebro numa cuba estimulado por um cientista perverso, mas também como Bertrand Russell (1872-1970) fez notar, com a ideia de que mundo poderia ter aparecido há cinco minutos juntamente com todas as pessoas que o habitam com “recordações” intactas, recordando-se todos de um passado completamente irreal.
Contudo, se começarmos a questiona seriamente a fiabilidade da memória, tornamos toda a comunicação impossível; se não podemos presumir que as nossas recordações dos significados das palavras são geralmente fidedignas, não há maneira de podermos sequer discutir o cepticismo. Além disso, poderia argumentar-se que a experiência mental do cientista perverso que manipula o cérebro numa cuba já introduz um cepticismo acerca da fiabilidade da memória, uma vez que se pressupõe que o nosso algoz tem o poder suficiente para nos fazer acreditar que as palavras significam seja o que for que ele quiser.
Um segundo tipo de pressuposto de que os cépticos raramente duvidam é a fiabilidade da lógica. Se os cépticos duvidassem que a lógica era realmente digna de confiança, isto enfraquecia a sua posição. Os cépticos usam argumentos que se apoiam na lógica: o seu objectivo não é autocontradizer-se No entanto, se usam argumentos lógicos para demonstrar que nada e imune à dúvida, isto significa que os seus próprios argumentos podem não ser procedentes. Logo, ao usar argumentos, os cépticos parecem apoiar-se fortemente em algo que, se fossem consistentes, teriam de afirmar ser incerto.
Contudo, estas objecções não respondem ao argumento da ilusão: sugerem apenas que o cepticismo tem limites; há alguns pressupostos que até mesmo um céptico extremo tem de admitir.
WARBURTON, Nigel, Elementos Básicos de Filosofia, 1998. Lisboa: Gradiva, pp. 145-149

TAREFA: “O cérebro numa cuba” é apresentado como um argumento em favor do ceticismo. Explicite esse argumento. (Deixe a sua resposta na caixa de comentários.)

3 comentários:


  1. Entende-se por alucinação uma perceção real de um objeto que não existe, ou seja, perceções sem estímulos externos. Aquilo que por vezes pensamos que está a surgir/acontecer pode ser resultado de alucinações, daí podermos afirmar que não é necessário estar a dormir para alucinar. Isto, porque basta apenas excessos de bebidas alcoólicas ou drogas, para fazermos coisas que não sabemos que estamos a fazer.
    Dá-se o nome de cepticismo a incertezas/dúvidas, daí este termo estar relacionado com a alucinação. A expressão cérebro numa cuba surgiu devido a experiências que um cientista maluco elaborou de forma a fazer com que uma pessoa possa deslocar-se a um lugar, no entanto o que está realmente a acontecer é que é que o cientista está a estimular certos nervos do nosso cérebro de maneira a que uma pessoa tenha a ilusão de que está a fazer aquilo, usando experiências com simulações feitas em computadores, conhecidos como máquina de realidade virtual.
    Depois de enunciado o facto que o cérebro dentro de uma cuba representa uma forma extrema de cepticismo, existe ainda outros aspetos que possam causar dúvidas. Por exemplo, hoje em dia pressupomos que a memória é digna de confiança, que as nossas recordações passadas, as palavras usadas são lembradas corretamente e que não passam de algo imaginário. No entanto, a memória, tal como os dados dos nossos sentidos não são dignos de confiança. E devido a esta discórdia de que a memória é ou não é digna de confiança fez com que se surgissem dúvidas acerca da fiabilidade da memória.
    Dado isto e como conclusão, podemos dizer que os cépticos raramente duvidam da fiabilidade da lógica, pois caso estes duvidassem que a lógica era realmente digna de confiança, isto ponha em causa a sua posição. Daí este utilizarem argumentos que se apoiem na lógica, que não se contradizem. No entanto, se estes usam argumentos para mostrar que nada se livra das dúvidas, os próprios usam argumentos que não são originárias. Dado isto, o cepticismo tem limites, uma vez que, mesmo os cépticos em alguns pressupostos têm de admitir que acreditam.

    Sónia Lopes Nº18 11ºTG

    ResponderEliminar
  2. A alucinação é a percepção falsa vinda de algum dos 5 sentidos: visual, auditivo, tátil, olfatório ou degustativo. Como por exemplo indivíduos que ouve vozes, que tem alguém a chamá-lo ou a dar ordens, mesmo quando os outros que estão ao seu lado não ouvem nada.As alucinações mais comuns vem da parte do sistema auditivo e visuais, mas não existe uma razão para isso.
    A expressão "cérbero nma cuba" deve-se ao facto de um cientista preverso ter feito experiência com um cérebro onde a pessoa pensava que ia por exemplo ao super mercado , ao trabalho , ou que caminhava de um lado para o outro , quando não acontecia nada disso, pois o cientista é que estava a estimular o cerebro para que pensasse que estava a fazer essas coisas. O ceticismo é a doutrina que afirma que não se pode obter nenhuma certeza absoluta a respeito da verdade, o que implica uma condição intelectual de questionamento permanente. Todos nós pensamos que a nossa memória é digna de confiança, que as recordações, as palavras são coisas que vivemos mas pode ser só algo imaginado.
    Cláudia Almeida nº7 11º TG4

    ResponderEliminar
  3. Bárbara Campos, nº3, 11ºTG3 de fevereiro de 2013 às 20:54

    Numa breve apreciação, o texto dá a entender que tudo o que julgamos ser real (visão, cheiro, sentidos) não passam de meras ilusões/alucinações criadas por alguém que nos ultrapassa. Neste sentido, simplesmente não existe corpo humano. Existe sim a ilusão da sua existência, criada por esse alguém, a partir de estímulos provocados por uma máquina no nosso cérebro.
    Contudo, conclui-se, da análise deste texto, que terão de haver dúvidas até nos próprios argumentos que os cépticos apresentam, pois como justificar que somos apenas um "cérebro numa cuba" e que esse cientista perverso realmente existe?

    ResponderEliminar