Mesmo que não esteja a
dormir, posso estar a alucinar. Alguém pode ter deitado uma droga no meu café
que provoque alterações mentais de forma que me pareça ver coisas que na verdade
não existem. Talvez não tenha realmente uma caneta na mão; talvez não esteja de
facto sentado frente a uma janela num dia soalheiro. Se ninguém deitou LSD no
meu café, talvez aconteça apenas que atingi um tal estado de alcoolismo que
comecei a alucinar. Contudo, apesar de esta ser uma possibilidade, é altamente
improvável que possa prosseguir tão facilmente a minha vida. Se a cadeira onde
estou sentado é apenas imaginária, como pode ela sustentar o meu peso? Uma
resposta a isto é que eu posso desde logo estar a alucinar que estou sentado:
posso pensar que me vou sentar numa confortável poltrona quando de facto estou
deitado num chão de pedra e tomei um alucinogénio, ou bebi uma garrafa inteira
de Pernod.
Cérebro
numa cuba?
A versão mais extrema deste
cepticismo acerca do mundo exterior e da minha relação com ele é imaginar que
não tenho corpo. Tudo o que sou é um cérebro a flutuar numa cuba de produtos químicos.
Um cientista perverso ligou de tal forma fios ao meu cérebro que tenho a ilusão
da experiência sensorial. O cientista criou uma espécie de máquina de
experiências. Do meu ponto de vista, posso levantar-me e dirigir-me à loja para
comprar um jornal. Contudo, quando faço isto, o que está realmente a acontecer
é que o cientista está a estimular certos nervos do meu cérebro de maneira a
que eu tenha a ilusão de fazer isto. Toda a experiência que penso provir dos
meus cinco sentidos é na verdade o resultado de este cientista perverso estar a
estimular o meu cérebro desencarnado. Com esta máquina de experiências, o
cientista pode fazer que eu tenha qualquer experiência sensorial que poderia
ter na vida real. Através de um estímulo complexo dos nervos do meu cérebro, o
cientista pode dar-me a ilusão de estar a ver televisão, a correr uma maratona,
a escrever um livro, a comer massa ou qualquer outra coisa que eu poderia
fazer. A situação não é tão rebuscada como pode parecer; os cientistas estão lá
a fazer experiências com simulações feitas em computador conhecidas como
máquina de “realidade virtual”.
A história do cientista
perverso é um exemplo do que os filósofos chamam uma experiência mental.
Trata-se de uma situação imaginária descrita de forma a esclarecer certas
características dos nossos conceitos e pressupostos diários. Numa experiência
mental, tal como numa experiência científica, através da eliminação de detalhe
que complicam as coisas e através do controlo do que acontece, o filósofo pode
fazer descobertas acerca dos conceitos sob investigação. Nesse curso a
experiência mental é concebida para mostrar alguns dos pressupostos que costumamos
ter acerca das causas da nossa experiência. Haverá alguma coisa acerca da minha
experiência que possa mostrar que esta experiência mental não dá uma boa imagem
da realidade, que eu não sou apenas um cérebro numa cuba a um canto do
laboratório do cientista perverso?
Memória
e lógica
Apesar da ideia de que posso
ser apenas um cérebro numa cuba parecer constituir uma forma extrema de
cepticismo, há ainda, de facto, outros pressupostos de que podemos duvidar.
Todos os argumentos que discutimos até hoje pressupõem que a memória é mais ou
menos digna de confiança. Quando dizemos que nos recordamos de ocasiões
passadas em que os nossos sentidos não foram dignos de confiança, pressupomos
que estas recordações são realmente recordações e que não são apenas produtos
da nossa imaginação ou de raciocínios caprichosos. E todos os argumentos que
usam palavras pressupõem que nos lembremos correctamente do significado das
palavras usadas. No entanto, a memória, tal como os dados dos nossos sentidos,
não é digna de confiança. A minha experiência é não só compatível com a
perspectiva de que poderia ser um cérebro numa cuba estimulado por um cientista
perverso, mas também como Bertrand Russell (1872-1970) fez notar, com a ideia
de que mundo poderia ter aparecido há cinco minutos juntamente com todas as pessoas
que o habitam com “recordações” intactas, recordando-se todos de um passado
completamente irreal.
Contudo, se começarmos a
questiona seriamente a fiabilidade da memória, tornamos toda a comunicação
impossível; se não podemos presumir que as nossas recordações dos significados
das palavras são geralmente fidedignas, não há maneira de podermos sequer
discutir o cepticismo. Além disso, poderia argumentar-se que a experiência
mental do cientista perverso que manipula o cérebro numa cuba já introduz um
cepticismo acerca da fiabilidade da memória, uma vez que se pressupõe que o
nosso algoz tem o poder suficiente para nos fazer acreditar que as palavras
significam seja o que for que ele quiser.
Um segundo tipo de
pressuposto de que os cépticos raramente duvidam é a fiabilidade da lógica. Se
os cépticos duvidassem que a lógica era realmente digna de confiança, isto
enfraquecia a sua posição. Os cépticos usam argumentos que se apoiam na lógica:
o seu objectivo não é autocontradizer-se No entanto, se usam argumentos lógicos
para demonstrar que nada e imune à dúvida, isto significa que os seus próprios
argumentos podem não ser procedentes. Logo, ao usar argumentos, os cépticos
parecem apoiar-se fortemente em algo que, se fossem consistentes, teriam de
afirmar ser incerto.
Contudo, estas objecções não respondem ao
argumento da ilusão: sugerem apenas que o cepticismo tem limites; há alguns
pressupostos que até mesmo um céptico extremo tem de admitir.
WARBURTON, Nigel, Elementos Básicos de Filosofia, 1998. Lisboa: Gradiva, pp. 145-149
TAREFA: “O cérebro numa cuba” é apresentado
como um argumento em favor do ceticismo. Explicite esse argumento. (Deixe a sua
resposta na caixa de comentários.)

ResponderEliminarEntende-se por alucinação uma perceção real de um objeto que não existe, ou seja, perceções sem estímulos externos. Aquilo que por vezes pensamos que está a surgir/acontecer pode ser resultado de alucinações, daí podermos afirmar que não é necessário estar a dormir para alucinar. Isto, porque basta apenas excessos de bebidas alcoólicas ou drogas, para fazermos coisas que não sabemos que estamos a fazer.
Dá-se o nome de cepticismo a incertezas/dúvidas, daí este termo estar relacionado com a alucinação. A expressão cérebro numa cuba surgiu devido a experiências que um cientista maluco elaborou de forma a fazer com que uma pessoa possa deslocar-se a um lugar, no entanto o que está realmente a acontecer é que é que o cientista está a estimular certos nervos do nosso cérebro de maneira a que uma pessoa tenha a ilusão de que está a fazer aquilo, usando experiências com simulações feitas em computadores, conhecidos como máquina de realidade virtual.
Depois de enunciado o facto que o cérebro dentro de uma cuba representa uma forma extrema de cepticismo, existe ainda outros aspetos que possam causar dúvidas. Por exemplo, hoje em dia pressupomos que a memória é digna de confiança, que as nossas recordações passadas, as palavras usadas são lembradas corretamente e que não passam de algo imaginário. No entanto, a memória, tal como os dados dos nossos sentidos não são dignos de confiança. E devido a esta discórdia de que a memória é ou não é digna de confiança fez com que se surgissem dúvidas acerca da fiabilidade da memória.
Dado isto e como conclusão, podemos dizer que os cépticos raramente duvidam da fiabilidade da lógica, pois caso estes duvidassem que a lógica era realmente digna de confiança, isto ponha em causa a sua posição. Daí este utilizarem argumentos que se apoiem na lógica, que não se contradizem. No entanto, se estes usam argumentos para mostrar que nada se livra das dúvidas, os próprios usam argumentos que não são originárias. Dado isto, o cepticismo tem limites, uma vez que, mesmo os cépticos em alguns pressupostos têm de admitir que acreditam.
Sónia Lopes Nº18 11ºTG
A alucinação é a percepção falsa vinda de algum dos 5 sentidos: visual, auditivo, tátil, olfatório ou degustativo. Como por exemplo indivíduos que ouve vozes, que tem alguém a chamá-lo ou a dar ordens, mesmo quando os outros que estão ao seu lado não ouvem nada.As alucinações mais comuns vem da parte do sistema auditivo e visuais, mas não existe uma razão para isso.
ResponderEliminarA expressão "cérbero nma cuba" deve-se ao facto de um cientista preverso ter feito experiência com um cérebro onde a pessoa pensava que ia por exemplo ao super mercado , ao trabalho , ou que caminhava de um lado para o outro , quando não acontecia nada disso, pois o cientista é que estava a estimular o cerebro para que pensasse que estava a fazer essas coisas. O ceticismo é a doutrina que afirma que não se pode obter nenhuma certeza absoluta a respeito da verdade, o que implica uma condição intelectual de questionamento permanente. Todos nós pensamos que a nossa memória é digna de confiança, que as recordações, as palavras são coisas que vivemos mas pode ser só algo imaginado.
Cláudia Almeida nº7 11º TG4
Numa breve apreciação, o texto dá a entender que tudo o que julgamos ser real (visão, cheiro, sentidos) não passam de meras ilusões/alucinações criadas por alguém que nos ultrapassa. Neste sentido, simplesmente não existe corpo humano. Existe sim a ilusão da sua existência, criada por esse alguém, a partir de estímulos provocados por uma máquina no nosso cérebro.
ResponderEliminarContudo, conclui-se, da análise deste texto, que terão de haver dúvidas até nos próprios argumentos que os cépticos apresentam, pois como justificar que somos apenas um "cérebro numa cuba" e que esse cientista perverso realmente existe?